17.2.11

Diário de anti-bordo #1

Quando eu era puta, chamavam-me melancólica; agora que não sou puta por adventismo e detenho a carteira profissional de melancolista, é só por puta que atendo. Nunca compreendi o que fazia do meu olhar o mais vítreo, tampouco o que acontecera ao mundo para parir clientes inteligensíveis – há lá coisa mais chata que afagarem-nos o cabelo enquanto lhes chupamos a pila? O Tito era o meu preferido; mandava-me chupá-lo e depois punha-se a cantar «Favas com Chouriço». Se eu me engasgasse com o riso, recebia mais, o que não era fácil de conseguir, contudo. A Berta vem cá ver-me amiúde, a miúda. Diz que a crise chegou à putaria e que eu sou lembrada na portaria. Eu digo-lhe que crise é não poder trabalhar, ao que ela acresce «cá fora não é diferente». Lá fora, eu era uma pulga, mas a prisão condenou-me à modorra mais empedernida. Só penso em cama, quanta ironia. Nada mudou, mudou tudo. Puta de prisão.

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